Você já se perguntou por que tantas pessoas começaram a cortar o glúten do prato nos últimos anos? A ideia de que a dieta sem glúten seria automaticamente mais saudável ganhou força, mas será que isso vale para qualquer pessoa? Ou existem situações específicas em que essa estratégia realmente faz sentido?
A verdade é que remover o glúten sem necessidade pode gerar mais prejuízos do que benefícios. Por isso, entender quem realmente deve evitar essa proteína é essencial antes de mudar a alimentação.
E é justamente isso que vamos explicar ao longo deste artigo, com orientações baseadas em ciência, saúde metabólica e o olhar clínico da endocrinologia.
O que é o glúten e por que ele virou vilão
O glúten é uma proteína presente no trigo, centeio e cevada. Ele dá elasticidade às massas e está em produtos comuns como pães, bolos, massas, cervejas e biscoitos.
Nos últimos anos, ele ganhou má fama. Muitos acreditam que ele causa inchaço, ganho de peso ou inflamação em qualquer pessoa. Contudo, isso não é verdade. A dieta sem glúten só é necessária em situações específicas, como a doença celíaca.
Estudos e entidades médicas reforçam isso. A Sociedade Brasileira de Diabetes, explica que somente pessoas com doença celíaca precisam evitar totalmente o glúten, pois ele gera uma reação autoimune que danifica o intestino delgado.
Retirar o glúten sem indicação pode gerar deficiências nutricionais, ou seja, para a maioria das pessoas, o glúten não é um problema.
Quando a dieta sem glúten é realmente indicada
A dieta sem glúten é considerada tratamento obrigatório para:
Doença celíaca
A doença celíaca é uma condição autoimune em que o contato com o glúten desencadeia inflamação e lesões no intestino. Isso prejudica a absorção de nutrientes e pode causar complicações graves.
Sintomas comuns:
- diarreia persistente
- perda de peso
- anemia
- dor e distensão abdominal
- aftas frequentes
- fadiga intensa
- alterações de humor
- infertilidade em alguns casos
Segundo o Ministério da Saúde, apenas 1% da população apresenta doença celíaca. Ou seja, é uma condição importante, mas rara. E só nesses casos o glúten deve ser retirado totalmente, sem exceção.
Sensibilidade ao glúten não celíaca
Algumas pessoas apresentam sintomas desconfortáveis ao consumir glúten, como gases, dor abdominal ou sensação de mal-estar, mas sem diagnóstico de doença celíaca ou alergia.
Nesses casos, a dieta sem glúten pode ajudar, mas precisa de investigação médica, porque os sintomas podem estar associados a outras condições mais comuns, como intolerância à lactose, síndrome do intestino irritável ou alergias alimentares.
Alergia ao trigo
Diferente da doença celíaca, esta é uma reação imunológica imediata ao trigo. Não exige restrição de todos os alimentos com glúten, mas sim do trigo especificamente. É outra situação que exige diagnóstico médico.
Como é feito o diagnóstico de doença celíaca
Se uma pessoa apresenta sintomas compatíveis, o endocrinologista e o gastroenterologista fazem uma avaliação completa. O diagnóstico inclui:
- exame de sangue com anticorpos específicos (anti-transglutaminase, anti-endomísio)
- testes genéticos quando necessário
- biópsia do intestino delgado por endoscopia
Um ponto essencial é: não pode retirar o glúten da dieta antes dos exames. Isso prejudica o diagnóstico. Por isso, qualquer mudança alimentar deve ser orientada por um especialista.
A dieta sem glúten ajuda a emagrecer?
Essa é uma das dúvidas mais comuns. A resposta é: não necessariamente.
Grande parte dos produtos sem glúten disponíveis no mercado é mais calórica do que a versão tradicional, já que muitas empresas adicionam açúcar, gordura ou amido para melhorar a textura dos alimentos.
Ou seja, retirar o glúten sem necessidade não faz emagrecer. O que funciona para perda de peso é um conjunto de hábitos, como organização alimentar, acompanhamento médico, controle do consumo calórico e avaliação hormonal.
Por que evitar o glúten sem indicação pode ser prejudicial
Cortar alimentos sem orientação pode parecer simples, mas pode trazer consequências. Entre as principais:
- deficiência de vitaminas do complexo B
- menor consumo de fibras
- alterações intestinais
- maior risco de exagerar em produtos ultraprocessados sem glúten
- falsa sensação de dieta saudável
- atraso no diagnóstico de doenças reais
Além disso, mudanças restritivas demais podem piorar a relação com a comida e gerar episódios de compulsão ou frustração.
Quando vale a pena investigar o glúten com um endocrinologista
É importante procurar avaliação médica quando houver:
- desconfortos intestinais persistentes
- anemia sem causa definida
- alterações de peso sem explicação
- fadiga constante
- histórico familiar de doença celíaca
- sintomas que pioram após ingestão de glúten
Um endocrinologista experiente avalia não só a possibilidade de doença celíaca, mas também condições hormonais e metabólicas que podem gerar sintomas semelhantes. Muitas pessoas acreditam que o glúten é o problema, mas na verdade têm:
- hipotireoidismo
- resistência à insulina
- síndrome metabólica
- intolerâncias alimentares
- desbalanços hormonais
- alterações no cortisol
Por isso, a investigação deve ser completa e personalizada.
Quando a dieta sem glúten realmente melhora a qualidade de vida
Ela pode ser benéfica quando há diagnóstico claro e acompanhamento profissional. Pacientes com doença celíaca, por exemplo, têm melhora significativa de sintomas e prevenção de complicações quando seguem a dieta corretamente.
Também é possível que parte das pessoas com sensibilidade não celíaca se sinta melhor ao reduzir o consumo, mas isso só deve ser feito após avaliação médica e nutricional.
O importante é entender que não existe cura milagrosa simplesmente cortando uma proteína da alimentação.
O papel do endocrinologista na decisão de cortar o glúten
Antes de remover o glúten por conta própria, conversar com um endocrinologista é fundamental. O especialista avalia o quadro clínico, sintomas, rotina alimentar, exames e histórico familiar para entender se a restrição é realmente necessária.
A Dra. Ana Bárbara Trizzotti faz essa avaliação de forma individualizada, considerando:
- sintomas digestivos
- sinais laboratoriais
- risco de deficiência nutricional
- fatores metabólicos
- estilo de vida
- objetivos de saúde e peso
Isso evita restrições desnecessárias e garante que o paciente siga um caminho seguro para cuidar da saúde.
Conclusão
A dieta sem glúten não é uma estratégia universal. Ela é essencial para pessoas com doença celíaca, pode ajudar em casos específicos de sensibilidade e alergia ao trigo, mas não é superior ou mais saudável para a maioria da população. Além disso, adotá-la sem orientação pode causar prejuízos nutricionais e atrasar diagnósticos importantes.
Se você apresenta sintomas desconfortáveis, se sente pior ao ingerir determinados alimentos ou está pensando em restringir o glúten para emagrecer, o melhor caminho é se consultar com um endocrinologista. Uma avaliação individualizada é a única forma de decidir se a dieta sem glúten é indicada ou não para seu organismo.


